O PREGADOR INTERESSANTE.

Reflexões de um jovem acerca da hipocrisia e psique humana.

Olá, homem.

banco da última fileira me esperava, como se guardasse minha sombra antiga. Fazia meses que eu evitava aquele lugar, e mesmo assim ele estava ali, nu, vazio, como se soubesse que eu acabaria voltando.

Além disso, o veículo tava, de certo modo, inóspito; recordo: quinze, dezesseis ou dezessete em torno disto. Dia de semana, fenômeno estranho, eram compostos, a maioria, por estudantes, idosos e trabalhadores; suposição. Todos companheiros e vítimas no remanso, bela solitude involuntária. Nos protegia o silêncio, como um lenço.

Cabeça ancorada no vidro. Os fios de cabelo da mulher, sentada na direita à frente, se encontravam com o pó, dando mais velhice aos fios do que já eram, um cinza, a cara triste. Eu ainda sentia um pulsar intenso no peito, mas aquela maratona já tinha acabado. Sempre a ganho, valia a pena, até certo ponto. A chacota, eu não ponderava, eles desconhecem o sentimento de alívio de saber que iria chegar lá. Os braços tímidos cruzados dela, se deslocou o braço esquerdo, apoiara-se na perna. A blusa preta meio surrada, minha psique como isso, certo?

Cada esquina, cada virada um drift o motorista conduzia – impacto contínuo envaidecido. O impacto me trazia com violência novamente ao assento. O incômodo, os olhos do homem, mirando o chão molhado de tristeza e incapacidade, estavam entreabertos; sono, talvez. Cansaço, fingem não perceber meus olhos cansados, finjo que nada me atinge, mas o disfarce cairá, nunca o tomarei conhecimento, quero o ter, porém; não, melhor não. Tenho de me assegurar mais tarde. Para fugir dos olhares indiscretos (com certeza os meus), a mão encobrira a face achatada.

Fechei os olhos. A sensação do motor, o ruído denso e, de certa forma, repetitivo, fazia tinquitinar lá de baixo; agia como um zumbido contínuo, vazio. Subia a zoada com as engrenagens de uma fábrica sem findar; seria assim que devia eu continuar? Tudo que eu fiz me arrependo, não querem esquecer, esquecer. O remorso carregam. Meus olhos: os abri novamente.

O veículo parou no terminal, por fim; lá, aquela gente saiu e outra gente entrou costumeiramente. Seguiu caminho.

Ficou denso o ar, pesado. O oxigênio, assim como alguém acusado de algo, foi sentenciado a uma prisão; e a pressão era as suas correntes, lhe deram peso. A tosse, sendo expelida com uma certa dor, incessante do senhor acostado na viga, incomodou aqueles lábios que se retorceram ao lado direito da face, revelando os dentes, virou as costas a sua mochila; devia olhar mais ao outro. . . na necessidade há uma ignorância para se manter, não preocupar-se com o alheio, o que faz mal, o que infecta. Cessou o senhorzinho aquele vil incômodo, acalmara os lábios.

Um outro homem, deixando de acostar-se na viga vizinha, se colocara no meio do corredor.

– Irmãos e irmãs, o Senhor tem uma mensagem pra vocês.

Disse. A voz ansiosa – não para um descanso, sim para uma missão, porém. O blazer verde, arrumando com a mão direita os botões perto do peito, enquanto com a esquerda segurava um exemplar da Bíblia toda surrada de manter, assim como o povo de Israel, era amarrotado e faltava os botões em cima do cinto. Dentre versículos, proferiu:

– O Mal tá presente no homem. A maldade vinda da serpente ainda mora no homem. O que acho mais interessante é como é que a gente não percebe isso.

Continuou nos versículos. Estava aprofundada, tão intrínseca e inocente, nos pensamentos a gente – pelo menos, creio que estavam. O olhar para baixo, mirando quase o vazio ou qualquer coisa que haveria nele. O dispositivo aproximando-se da face, uma visita para através do vidro sujo; o locutor falou um pouco mais alto. Olhei a calçada; muitos veículos esperando o farol abrir. A espera. Culpa do passado; o Mal herdado é fácil de admitir. É distante, sim, é – ninguém o nega. É fácil apontar o Mal antigo, pois é uma explicação histórica que absorve-nos da urgência do Mal presente; por que o relembramos? Queremos distanciar do passado para não cometê-lo novamente, é necessário? Sempre é assim: ir lá atrás, desde o princípio, encontrar – ou cavoucar – algo para terceirizar a Doença, para o primeiro homem, a primeira mulher, a serpente sedutora. Culmina em um medo, uma justificativa para a vigilância para paralisar a Miséria; o alimenta fervorosamente, mas. Resposta unânime: devemos esquecê-lo, ou melhor, ignorá-lo. A ignorância é uma escolha ativa; ignoramos a criança no semáforo, o distanciamento do idoso. Compreender a nossa única luta. . . A entonação dele para “mal” foi forte; é uma forma natural, intragável, no entanto? Se sim, o mesmo se aplica-a; ela nunca deve guiar nossas atitudes, desejos e, sobretudo, a mente; tomar as rédeas da responsabilidade e colonizar no espírito, a sociedade não a recordaria mais – estaria completamente esquecida ela? Eu sabia? – melhor, a compreendia? Eu esqueço e perdoo; ela não, não. . . maior parte do tempo a lutar para compreendê-la pelo o que fez comigo, entretanto conhece esta mais da minha psique do que eu próprio. . . me atinge. . . forte demais. . . o que fazer. . .

Parada brusca, a placa enferrujada. Alguém saiu, infestado de versículos rondando a mente.

O jovem observou, tal qual um estudo de costumes, aquele blazer verde. Sentava à frente; peleja a manter os olhos fixos nos braços cruzados rente a camisa roxa, permitia escapar uma olhadelas simples ao que o pregador discursava (nunca matou ninguém uma olhadela curiosa). Parecera, contudo, dar essas escapadas de olho para não entrar em um julgamento interno, sem escrúpulos. Análise: voltou a permanecer cabisbaixo nos braços.

Lá na frente, a solidão tomou, não amistosa, por vez a gente, no entanto; esquecendo-os.

Era-me certo que havia um quê de introspecção. (Introspecção fajuta, divergente da minha.)

Dançava alegremente os sapatos a manter o equilíbrio para frente e para trás (ridículo, como fiz a continuar numa dança social para eles; lhes agradar); o motorista não desejava que o pobre homem levasse a palavra do Senhor – ou a dele, talvez. O observei mais: as mãos. Simples – elas. A esquerda segurava, ainda, apesar de tudo, as Escrituras, passiva, silenciada.

O que é mais interessante é que, tipo, tem ainda falsos profetas na casa Dele – gesticulou. A mão direita colocava-se para frente; os dedos indicador e médio se juntando, em uma sincronia: objeto agora da observação. – Eles não concordam com o que Ele diz; mas com o fato Dele dizer o que pode dar proveito pra eles; isso é o que acho mais interessante.

Disse, radiante com os olhos.

Um chamado. Aquela frase, tão extraordinária de espírito — vazio. No alto da montanha, proferir para visualizar o Senhor na sua amplitude. De imediato, agradar-Lhe-ia.

Uma calorosa cachoeira de sentidos que se derrama sobre uma fonte límpida. Longe, lá, ainda o semáforo não trocara a cor. Sinceridade, eu fui direto no raciocínio: havia, sim, gente falsa nas Instituições. Se dizem ansiar pelo mundo que a visão de mundo deles promete; os métodos revelam-nos outra cosmovisão. Discutem o amor, o perdão, a compaixão – um ensaio pra seus interesses, cálculo travestido de sermão. Ali, a luz de vários prismas formando uma linha, o conteúdo que prende uma mente vazia; curvado aquele moço, reclinando-se, às vezes, pra ter uma posição melhor. A voz do que discursava se manteve distante ao que diabos passavam por aqueles fones conectados aos ouvidos; não importa. Era pra essa gente que o pregador discursava, pra seus iguais? Fingimento. . . não é intencional, eu acredito – de certo. Ao menos, busco entender, conhecer. (Isto me guia.) Não, não, eles não desaprovam o que Ele diz, sim o “fazer”, todavia. Convenhamos, ninguém anseia seguir a riscas as regras que a doutrina pede: não fazem boas obras. Vemos quase infindos exemplos de distanciamento das virtudes previstas. Não buscam o bem de suas comunidades, disfarçam a honestidade envergonhada; isso! Envergonham-se das boas práticas que a gente deveria fazer, xeque-mate! Verde, alta velocidade, passa! Mas – o motivo da vergonha? Sentir-se insuficiente para Ele, este se envergonha de nós? Verdade: o comprometimento que temos (ou devemos) é fraco, rebaixável. Como se diz, deveríamos estar na Igreja, casa Dele, todo domingo e, adivinha, não estamos lá. Ao ouvir as suas profecias, deixá-las pro vento escutar; gastando nosso tempo em qualquer coisa, sei lá. Todos dizem que seguem e fazem o que agradam-no. Pegamos o supérfluo e, pois, como “genuidade”, o superestimamos até abdicar-se do espaço que o divino há o direito de estar; é – possível? Eles disseram pra mim que eu poderia ser alguém, me instruíram (fora insuficiente). Cobravam um ser inferior que, dentro da concepção, tinha algo “divino” sem igual; não poderia cometer erros. Cobrar: havia algo que era diferente? Sim. . . Nunca demonstrou nada! “Nada” – queriam o vazio. Ela falou pra eles, nada que serviria tinha, pura ilusão. Porra: havia uma razão. Nem sei, só. . . sinto, algo assim. Indesejada foi a decepção deles, não culpo, sim. Se tivesse no lugar deles, me estaria também.

Horas: uma dúvida medíocre pairou sobre mim. Fiz por olhar pra a janela entreaberta; não havia indicativo de horário. Era meio óbvio. Ridículo. Não passara 15 minutos desde que o ônibus havia saído do terminal.

Como aquele pensamento me cobrou demais, eu fiquei, pelo que entendi, sem pensar em coisas. Nada – absolutamente zero coisas. Nesse instante, assim como minha psique, o pregador pomposo cessou de proferir seus versículos. Tornei a observar quieto e, sem dúvidas, em uma sincronia com o vento. Foi agridoce.

. . . Coisas: algo simbólico ou profundo. Sim, ocupavam a maior parte do tempo fora de casa, não tenho culpa. Elas, como eles, sempre vem até mim, nos momentos que eu nem quero estar com elas – apenas vêm. É como eu controlar um carrinho num parque e, de repente, ele estar numa corrida internacional na Europa. Idéia.

O barzinho vermelho –­ pintado da forma mais seca dessa cor - da esquina, aquele: tô perto do destino final, metafísico. Abre-me uma certa sequência de lembranças; todas de um sabor excêntrico se memórias pudessem haver de um sabor gastronômico. Uma vez, eu e ela fomos até o balcão, me recordo. A tarde tava, pois, num clima que tendia a ser feliz. Todos aqueles bêbados, com fileiras de copos de cevada, sustentavam essa atmosfera. Ela colocou os braços sobre a madeira do guichê; era seu costume executar isso. Em todas situações, projetava-se pra frente e cruzava ambos os braços, numa pose grega, de musa. Pediu um, dois copos que o garçom deixou um pouco atrás, tanto que eu tive de estar na ponta dos pés pra alcançá-los – bem, quase.

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